sábado, 27 de agosto de 2016

Ja faz algum tempo...

Faz tempo desde a minha ultima visita por aqui. A desculpinha de sempre: muito trabalho, muito cansado.
Preciso confessar: falta de inspiração para escrever.

Tenho um sonho antigo de escrever um livro. O assunto pode ser um qualquer. Diz-se que é melhor escrever sobre o que se conhece. Conhecimento secular? Vai ter sempre alguém que sabe mais que você. Isso me irrita um pouco, porque toda vez que o livro for pra revisão, vão dizer que os dados estão errados e imprecisos. Tudo bem que isto pode até estar mostrando um pouco de falta de vontade da minha parte de fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre as coisas. E quer saber? Quem falar isto estará coberto de razão.

Parti, então, para a minha história. De onde eu vim, como cheguei aonde estou e o que planejo para o futuro. Sobre este assunto eu tenho domínio completo e não dependo de ninguém para dizer se as informações estão certas ou erradas.
Comecei a redação depois de elaborar uma "linha do tempo". Alguma coisa como: de onde eu vim e para onde eu vou. Coisa simples. Literalmente uma linha desenhada no papel e os acontecimentos delineados em ordem cronológica para facilitar o encadeamento das idéias. Foi fácil fazer isto. Foi fácil escrever os primeiros capítulos. Está difícil terminar.

E eu digo porquê:

Acabou a inspiração.

Não sei... parece que tudo pelo que passei começou a se fundir com a memória passada... bem distante do que estou vivendo hoje. Uma coisa estranha... Enquanto eu escrevia, era como se meu combustível estivesse minguando, minguando, minguando até, finalmente, acabar de vez. Alguns podem dizer que foi falta e incentivo, mas isso eu tenho que dizer que nao é. Tenho - tive - a grata satisfação de ter uma pessoa muito gabaritada para ler os meus rascunhos, e não foi pouca surpresa minha ter conseguido conquistar a atenção dele. Sem duvida nenhuma, uma visão detalhista e com conhecimento suficiente para dizer que o meu manuscrito tinha - ou tem - futuro.

Mas... a inspiração...

Quando penso sobre isto, lembro-me do filme do escritor que toma uma pílula que aumenta as sinapses do seu cérebro, da clareza nas ideias e faz dele um gênio. No filme ele termina seu livro em quatro dias - eu realmente esqueci o nome do filme. Tem aquele cara do Hangover... Mas eu penso no que seria conseguir um comprimido daquele... o mundo seria diferente...

Mas deixando as drogas de lado, o que eu acho que precise mesmo, eh de passar um pouco mais de tempo na frente do teclado para fazer o que é necessário: escrever.
Ainda que este tópico neste blog nao fale nada sobre Odontologia exercida nos Estados Unidos e nem uma forma de conseguir validar o Diploma de Odontologia nos EUA, quero deixar o primeiro capitulo do meu livro registrado. Se um dia sair sua publicação eu aviso através deste canal. Se não, fica um pouco do que eu escrevi pensando em deixar para o futuro o que passei para chegar aonde cheguei.

Um abraço e sucesso sempre!



CAPITULO 1 – IMPOSSIVEL

            A minha trajetória começou em uma manhã como outra qualquer no pátio da escola “Olavo Bilac/ Ayres de Moura” em São Jose dos Campos – SP. O ano era 1986, e como todo aluno do ginásio, eu procurava me manter informado das ultimas noticias que aconteciam pela escola. Nunca fui popular, diga-se de passagem. Popularidade passou sempre muito longe de mim. Sentia que seria interessante, até, ter um pouco de reconhecimento por parte dos amigos. Mas como o que eu tinha eram somente colegas, reconhecimento do que quer que fosse ficava para quem realmente tinha o que se ter reconhecido.
            De qualquer forma, aquela manhã se notabilizou na minha memoria porque um dos meus colegas de classe estava muito entusiasmado com a ultima aquisição para sua casa: Uma Enciclopédia Barsa. Em dias atuais, para quem não tem ideia do que seja uma Enciclopedia Barsa, uma forma fácil de entender é imaginar que você tinha o conteúdo completo do Google disponível na estante da sua casa. Fazer pesquisa de escola era totalmente diferente. Em época que CTRL+C e CTRL+V não existiam, abria um dos volumes da Barsa, procurar o conteúdo, ler, fazer uma resenha e passar a mão na folha de papel almaço pautada era uma trabalheira terrível. Aquilo, sim, dava conta de um trabalho escolar.
            Paulo, este meu colega de classe, era também amigo de infância – crescemos juntos – nas salas de Escola Dominical da Igreja Crista Evangelica em São Jose dos Campos. Alem de encontra-lo diariamente na escola, mantínhamos contato durante reuniões do departamento de adolescentes, acampamentos e outras programações da Igreja. Eramos próximos, mas o tempo depois pode provar que não eramos tão próximos assim. Coisas da vida. Pois então: Gabando-se da ultima aquisição para sua casa, ele dizia que juntamente com os volumes que chegaram pelo correio, se não me engano, tinha vindo também alguns cartões com informações sobre as mais diversas profissões. Pessoalmente eu nunca vi estes cartões, muito menos a coleção completa da sua nova Enciclopedia. Eu mesmo tinha uma em casa que meus pais compraram aproximadamente na época que se casaram. Os trabalhos de pesquisa acabavam tendo o mesmo resultado, com a diferença que os meus estavam uns vinte e tantos anos de defasagem.
            Quando o Paulo estava comentando sobre os cartões que ele tinha recebido junto com a coleção de livros, ele disse que tinha se interessado por um tema ao qual eu nunca tinha ouvido: Cirurgia Buco Maxilo Facial. “Nossa... que nomão...” pensei eu. Do nome completo eu acho que tinha entendido somente o primeiro e o ultimo. Do resto, quase nada aproveitei. Se eu tivesse ficado somente com o primeiro e o ultimo nome, talvez tivesse partido para cirurgia plástica. Eu sabia que a área de exatas não seria parte do meu futuro. Os números e a abstração da matemática nunca foram meus companheiros. Demorou um pouco para eu entender que eu não consigo visualizar e entender os conceitos abstratos que envolvem muitos dos aspectos da matemática. Hoje eu admiro quem o faz, mas naquela época eu só queria esmagar a cara de um tal Alexandre de quem a minha mãe não parava de elogiar toda vez que o assunto vinha a tona. Nunca vi e nunca conheci este Alexandre. Devia ter seus méritos pessoais e estudantis, assim como eu deveria ter os meus. Ele era filho da melhor amiga da minha mãe. Amiga de infância, sabe? Pois é... o filho da melhor amiga dela era um ás da matemática e era sempre usado como comparação à este simples e mero mortal. Não o conheci e pra ser bem sincero, nunca tive vontade de conhecê-lo. Talvez se o tivesse, iria convida-lo pra vir morar em casa e dar um pouco de alento pra minha mãe. Os anos passaram, cabelos cresceram e ja começaram a cair e eu sobrevivi. Hoje eu espero que minha filha tenha obtido esta visão abstrata dos números através dos genes vindo do seu avô, economista formado, professor de estatística e um gênio das ciências exatas. Afinal, qualquer um que tenha sobrevivido ao que ele sobreviveu na sua pos-graduação em Michigan, só pode ser um gênio. Vou esperar para ver.
            Não entendi muito bem o que aquele termo “Buco Maxilo” tinha a ver com “Cirurgia Facial”. Foi quando o Paulo me explicou que esta era uma área da Odontologia que tratava de deformidades da face. Pensando bem, hoje imagino que sua atenção tenha sido fisgada neste assunto por ele mesmo ter portador de deformidade Classe III com mordida aberta anterior e cruzada bilateral. Passa-me pela cabeça que ele tenha visitado algum especialista na época e ter se encantado com a possibilidade de ter o seu perfil transformado através de cirurgia. Da pra entender seu interesse. Hoje eu vejo isto. Na realidade, eu vi isso profissionalmente quando ele bateu na porta do meu consultório para fazer o tratamento. Ortodonticamente um caso simples. Era somente alinhar, nivelar e mandar pro Cirurgião Buco Maxilo Facial. Com a tecnologia atual, eu creio que menos de seis meses ele ja estaria pronto para a cirurgia. Mas... quis sua esposa que ele não fizesse a cirurgia e ele deu pra trás. Mas naquela manhã de 1986, a fagulha foi lançada e meu interesse pela Odontologia teve seu inicio.
            Pensando a respeito nos dias seguintes comecei a conversar com familiares e amigos que eram da profissão. Era necessário saber bastante biologia. Isso não era problema. O que realmente me chamou a atenção foi saber que eu não precisaria me matar para estudar matemática. Viver a vida com esta sina era tudo o que eu menos precisava. Poderia fugir de me chafurdar ainda mais em conceitos abstratos e estudar alguma coisa mais palpável, possível de ver, tocar e transformar.
            Foi assim, de uma conversa de intervalo de aula, que meu interesse pela Odontologia nasceu. Foi simples. Poderia ter me interessado em Medicina, Farmacia, Psicologia ou qualquer outro ramo similar. Mas não... Minha vida era pra ser Dentista mesmo.
            Daquela manhã em 1986 até o meu ingresso na faculdade foram aproximadamente oito anos. Oito anos de muita luta. Luta contra notas vermelhas... Eu confesso que nunca fui muito dado aos estudos. Um arrependimento tardio, daqueles que a gente fala: “Se eu soubesse o que sei hoje, 20 anos atrás tudo seria diferente.” É... provavelmente não estaria fazendo  o que estou fazendo. São daqueles momentos de reflexão inútil, que serve somente pra ser lembrado sentado no vaso ou durante o banho, quando todas aquelas respostas que não demos em discussões aparecem na ponta da língua.
            Eu sei que deixei me levar muitas vezes pela maré dos que me cercavam. Aconteceu em 1988 quando perdi meu primeiro ano da escola. Foi um baque para meus pais. Mas sei que não colaborei absolutamente nada para, se quer ser merecedor de uma revisão das notas no final do ano. Sentado no fundo e no canto da sala, eu me cercava com uma mesa a minha esquerda, a parede a direita e uma mesa à minha frente. Ao meu lado, o grupo com quem eu me identifiquei aquele ano. Eramos os piores da classe. Não havia palavrao, desrespeito ou coisa parecida. Simplesmente não estávamos mentalmente na sala de aula. A todo o momento era uma piada do jeito do professor, ou um bilhete passando de um lado para o outro na sala, ou admirando a beleza de uma ou outra colega da sala... o que acontece foi que aquele ano no tocante a escola foi um ano perdido. Olho para tras e vejo o quanto eu perdi daquele ano. Teria valido a pena se tivesse aprendido alguma coisa. A repetência aconteceu como a coisa mais natural do mundo. Quem planta, colhe.
            O segundo ano do meu primeiro colegial foi cercado de muita expectativa por parte de muita gente. A começar pelos meus pais, meus irmãos, avós e professores. Todos me olhavam como que dizendo: “Foi um aprendizado. Tudo passou e agora vai dar certo.” Aprendi a lição das companhias. Afastei-me dos que me acompanhavam dos anos anteriores naquela escola e pedi para ser transferido para uma classe com alunos novos. Quem sabe aquele ambiente onde eu não conhecia ninguém pudesse ajudar a me concentrar mais. É... não foi uma boa escolha também... o ano passou e no final do ano lá estava eu novamente na lista dos reprovados. Agora não tinha quem culpar a não ser eu mesmo. Sinceramente esta segunda chance foi uma falha de décimos de pontos. Sabia que se eu ficasse de recuperação em três matérias eu poderia ser aprovado, mas por décimos de pontos em uma quarta matéria eu fui retido sem chance de segunda chance. A minha segunda chance tinha ido para o brejo.
            O final de 1989 foi difícil para minha mãe. Eu tento imaginar que não passou na cabeça dela e do meu pai. Afinal de contas bancar a escola pra uma segunda repetência consecutiva era demais. Não teria mais nenhuma chance e meu destino seria a escola publica, para a tristeza e desespero deles que sempre fizeram o que puderam para dar a melhor educação para os três filhos. Naquele final de ano ainda, a auxiliar da orientadora pedagógica ainda deu um diagnostico para minha mãe e acabou tirando ela do eixo. Soube disso muito tempo depois do acontecido, e quando esta mulher ja tinha morrido ha muito tempo. Disse ela que eu tinha autismo e por isso eu não progredia na escola. Pelas mesmas palavras delas a minha imaturidade do ano anterior tinha progredido para autismo no período de um ano letivo. Aquilo de fato afetou sobremaneira minha mãe. A matricula na escola publica era a única alternativa para o filho autista dela.
            No dia que ela tinha decidido a fazer a minha matricula na escola publica, acredito ter sido um dia muito difícil para ela. Quando ela se dirigia para a escola, ela encontrou o nosso Dentista da família. O Becker passava por ali naquele momento. Coincidentemente – ou providencialmente para quem não acredita em coincidência – a Faculdade de Odontologia de São Jose dos Campos – SP fica em frente ao Colegio Estadual Joao Cursino, na Avenida Francisco Jose Longo. O Becker – ou Batista como a gente chama ele até hoje – era professor de Ortodontia na faculdade e viu minha mãe e os dois começaram a conversar e então ela contou o que estava fazendo ali. O momento de toda mudança da minha vida começou com aquela conversa entre os dois. O Batista me conhecia desde sempre. Fui um dos seus primeiros pacientes, ainda com dois ou três anos de idade. Era a minha referencia dentro da Odontologia  e, não somente neste episodio, mas também por toda minha vida, ele sempre foi alguém em quem me mirei como profissional.
            Quando minha mãe contou todo o problema escolar porque passei, o dito “diagnostico” de autismo proferido pela auxiliar de orientação pedagógica, e a decisão de me matricular no Joao Cursino, ele – o Batista – foi enfático em dizer para que ela não fizesse isso. Ele sugeriu que ela fizesse diferente: Iria me tirar do Olavo Bilac e me matricular em uma escola diferente. Melhor e mais cara.
            O que dizer de tal decisão? Hoje eu só agradeço. De onde tirar tamanho amor e dedicação por parte de um pai e mãe que dão uma segunda chance como esta para alguém que parecia não ter jeito. Os meus anos dentro do “Colégio Cassiano Ricardo” ou o Anglo São José foram uma nova oportunidade dada para mim sem que eu mesmo merecesse. Não da pra entender amor de pai e mãe até que a gente se torna um. Sei de outros pais que nunca teriam dado a oportunidade que me foi dada. Fazendo a terceira vez o primeiro colegial eu acho que foi o momento mais difícil para mim, porque eu sabia do esforço feito por parte deles para me manterem ali. Ainda assim, os três anos passados ali não foram fáceis. Ainda não compreendendo o mundo abstrato das ciências exatas, eu tive a chance de ter professores que andariam a milha extra comigo para que eu fosse aprovado. 1990, 1991, 1992 passaram e finalmente eu estava pronto para meu primeiro vestibular. O meu destino? Faculdade de Odontologia da Universidade do Estado de São Paulo Campus São Jose dos Campos. Ou simplesmente UNESP SJC.
            Acho que seria pedir demais conseguir passar na UNESP SJC na minha primeira tentativa. Ainda que tivesse feito aulas extras e me preparado para a prova, a turma de 93 ainda não era a minha. Deixei de prestar para a UNITAU porque eu achava que poderia ser aprovado na UNESP. Naquele ano eu se quer tinha feito a inscrição para Taubate. Porque eu iria para Taubate se eu poderia estudar e morar na mesma cidade? Bom... veio a lista de aprovados e eu não estava la. Saiu a lista de segunda chamada e a lista espera e eu também não estava la. Viria, então, mais um ano no Anglo, mas agora fazendo cursinho.
            Este ano foi de estudo. Conheci muita gente, aprendi muito e sentia que aquele ano seria o meu. Comecei a compreender conceitos físicos e matemáticos que nunca antes tinham entrado da minha cabeça. Funções, trigonometria, física, óptica... muito do que antes nunca tinha entendido começaram a fazer sentido. Bom... nunca é tarde. Aquele ano era o meu ano e  a turma de 94 da UNESP seria a minha. Indo contra a minha vontade e atendendo a ordem expressa de casa, fiz minha inscrição da UNITAU. Prestei também vestibular para UNICAMP e USP. Mas era UNESP SJC que eu queria. UNITAU fui fazer por fazer. Não era o que eu queria. Nem mesmo UNICAMP e USP. Ainda que eu tenha sido chamado para fazer a prova pratica da UNICAMP, viver em Piracicaba não era parte dos meus planos. Eu queria fazer Odontologia e não comer pamonha. Na USP eu fiz inscrição para Ribeirão Preto. Meu irmão ja estava fazendo o segundo ano ali. Facilitaria a residência dos dois e tiraria um pouco da preocupação dos meus pais, tendo os dois irmãos na mesma Escola. Nem imagino eu tomando trote do meu irmão mais velho. Deus sabe o que faz e protege seus filhos.
            A prova da UNITAU foram dois ou três dias. Fiz com a maior cabeça desencanada. A redação foi uma piada. Pouco tempo depois foi a prova da UNESP. Esta sim. Com todo o respeito e dedicação, reverencia e atenção eu fiz a prova mais seria da minha vida. Gabaritei a prova de inglês – que usaria muito tempo depois. Mas não foi suficiente para minha aprovação. No dia do resultado eu fui procurar meu nome na lista liberada no cursinho Universitario que ficava na Major Antonio Domingues em São Jose. Fui com um colega do colegial do Anglo que tinha sido aprovado no ano anterior em Engenharia Mecanica na UNICAMP, o Fidão. Um cara genial. Deixou a engenharia para se dedicar a sua paixão maior, a aviação. La estava eu na frente da lista de aprovados completamente sem palavras. Mais uma vez não fora aprovado. Acho que uma fotografia minha ali seria a descrição exata da decepção. Não dava pra acreditar que todo o esforço daquele ano tinha ido agua abaixo. O Fidão pos a mão no meu ombro e dali me chamou pra tomar alguma coisa na Padaria Nove de Julho.
            A minha ultima chance de aprovação restava na UNITAU. UNICAMP e USP eu ja tinha falhado também, mas não estava preocupado. A UNITAU não era para onde eu queria ir. No dia determinado para a liberação do resultado da prova eu acordei cedo e sai de casa rumo a Taubate sem dizer nada pra ninguém. Meu pai ja tinha saído mais cedo ainda para o trabalho e minha mãe estava em casa dormindo ainda. Cheguei em Taubate e fui para a Reitoria de graduação onde a lista de aprovados estava publicada. A internet estava longe de ser o que é hoje. A lista saia somente na Faculdade ou no Jornal O Vale Paraibano no dia seguinte. Comecei a procurar meu nome, na esperança de não encontra-lo. A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, Ja, Je, Ji, Jo, Joao Antonio Costa. La estava meu nome. Aprovado em 45º lugar. Eu não acreditava!! Não era possível!! Mas foi verdade. Eu tinha sido aprovado e tinha na minha frente a chance de fazer Odontologia, ainda que não onde eu sempre quisera.
            Entrei no carro com sentimento de derrota. Eu sabia que meus pais não aceitariam mais um ano de cursinho para, agora, um capricho meu. UNESP, UNITAU, não interessaria nada! O importante para eles foi que eu passei. Cheguei em casa, e cabisbaixo abri a porta da cozinha que dava acesso a garagem. Minha mãe estava tomando café da manha. “Onde você estava?” perguntou ela terminando de comer um pao com manteiga. “Fui pra Taubate ver o resultado do vestibular e eu passei...” tentando transmitir meu sentimento de decepção. O rosto dela na hora brilhou, seu olhos se encheram de lagrimas e ela me abraçou como se não me visse ha muito tempo. Ela não parava de comemorar me abraçando e desejando “Parabens!”. He... “Parabens porque?” pensava eu. Duro mesmo foi ouvir ela dizer: “Eu não falei para você fazer a prova?”. Como de fato hoje eu credito à sua insistência para eu fazer a prova. Mas aquele dia eu não queria comemorar. Quando meu pai chegou em casa, ele e o Marcos, meu irmão mais velho – aquele da USP Ribeirão – chegaram em casa com cara de que iriam aprontar e cada um quebrou um ovo na minha cabeça para comemorar a minha aprovação. Sem muito pra comemorar, minha esperança estava depositada dali ha poucos dias, quando sairia a segunda chamada da UNESP. Ainda havia uma chance.
            Naquele final de semana, fomos passar uns dias em um resort em Caraguatatuba. Ilha Morena era um clube ou resort na qual sempre fomos sócios mas pouquíssimas vezes usamos. Coincidiu que no final de semana que o resultado da segunda chamada seria liberado nós estaríamos em Caragua. No domingo marcado para a lista sair no jornal, passei na primeira banca que encontrei e comprei a Folha ou o Estado de São Paulo. Fui direto na seção dos vestibulares e la estava meu nome! Na lista de espera... depois da segunda chamada. Era o oitavo da lista de espera. Quer dizer: Eles chamariam todos da segunda chamada e somente depois deles é que chegariam a lista de espera. Mas eu ainda tinha chance.
            Para não ficar sem fazer nada, fiz a matricula na UNITAU na esperança de a qualquer momento ser chamado para a UNESP. As aulas começaram e eu dizia para todo mundo que eu era o oitavo da lista de espera da UNESP. Todos os dias eu ligava para São Jose, ou pedia para minha mãe ou meu pai ligarem. Os dias foram passando, as aulas em Taubate começando a ficar mais e mais interessantes, os candidatos a lista espera sendo chamados e nada de chamarem meu nome. Até que entendi que não teria mais chance. Isso se deu em uma aula de Bioquimica quando o Edson – chefe do Departamento – dando uma aula sobre Vmax disse que em situações similares a minha – quando as aulas ja tinham começado – eu poderia ser reprovado por faltas. Naquele momento eu percebi que ja não tinha mais chance. Tentei, sem sucesso, mais uma investida indo diretamente a secretaria da UNESP para saber se eu ainda tinha alguma chance. Nada. Fiquei por quatro candidatos para ser chamado. Ainda houve uma quase oportunidade para ser chamado na USP Ribeirão Preto. Meu irmão disse que eu poderia ter uma chance se eu me apresentasse na secretaria da Faculdade demonstrando meu interesse. Nesta hora qualquer coisa pra não ficar em Taubaté. Eu e minha mãe dirigimos 10 horas aquele dia, ida e volta. Não resolveu nada. Voltei para Taubaté resignado certo, agora, de que minha vida e formação profissional seria toda feita ali.
            Não quero dar a impressão de que eu não gostei de ter me formado em Taubaté. Eu tenho orgulho da minha Faculdade. A UNITAU é minha ALMA MATER e ninguém tira de mim a satisfação de ser um ex-aluno de lá. Foi na UNITAU que aprendi a amar ainda mais a Odontologia. Foi ali que aprendi a entender e compreender a como lidar com meus pacientes, seus anseios e desejos. A desenvolver empatia e ter minha compaixão aumentada pelo prazer de servir. Foi ali que obturei meu primeiro canal, fiz amigos para vida toda e recebi o maior presente de todos: conhecer minha esposa e companheira.
            A UNITAU tinha uma tradição entre os alunos do primeiro ano. Alem de ter que nadar no lago imundo da Praça Dom Hepaminondas, era fazer um abaixo assinado para o  chefe de Departamento para tirar as aulas Materiais Dentarios do sábado. Por mais de quinze anos todos os anos os alunos do primeiro ano, logo na primeira semana de aula, entregavam este “documento” na mesa do Chefe de Departamento. Eu imagino que ele simplesmente olhava para o papel assinado, amassava e jogava fora.
            No fundo, sábado não era tão ruim assim. Era o único dia que não tinha veterano gritando: “Quero sangue de calouro!”. O terrorismo vinha do outro lado, por parte dos professores e a fama que a materia tinha em reter o maior numero de alunos do primeiro ano, perdendo em numero, somente para a Endo I no terceiro ano. A equipe de Materiais Dentarios era liderada pelo Carlucho. O saudoso professor Carlos Alberto Jambeiro da Rocha. Um ícone da Protese Fixa, que fizera sua carreira na UNESP SJC e fora professor de muitos dos meus primos e amigos, além de professor do Becker – o Batista – que teve papel fundamental na minha chegada até la. A liderança era boa mas a equipe em si era de gosto questionável. Professores arrogantes e apedeutas no sentido social da palavra; sem qualquer tato ou jeito de lidar com os alunos. Fossem piadas impublicáveis sobre a recente morte do Ayrton Senna ou piadas machistas e constrangedoras, a ideia era fazer o sábado dos alunos o dia mais difícil da semana. Das oito da manha as quatro e meia da tarde vivíamos sob a pressão de se trabalhar com materiais nunca antes conhecidos. Não era de se admirar os abaixo assinados.
            Em 1994 a equipe de professores de Materiais Dentarios da UNITAU recebia na sua congregação a presença de um ex-aluno do Carlucho quando este era professor na UNESP SJC. Um cara bem vestido, com o cabelo bem aparado, grisalho nos lados acima das orelhas, com um olhar de esgueio e olhos entre abertos, como se desconfiasse de tudo e todos. O FULANO tinha acabado de chegar de uma temporada no Japao e Estados Unidos e tinha voltado para ficar.
            Opa! Estados Unidos? Dentista? Temporada fora? Trabalhou nos EUA? Como é que é? Esse poderia ter informações preciosas para eu poder trabalhar como Dentista nos EUA. Mas por que nos EUA? Eu explico:
            Em 1971 meu pai foi para os EUA para fazer sua pos graduação em Engenharia Industrial. Na época levou com ele minha mãe e meu irmão mais velho – o outro Dentista da família que se formou na USP Ribeirão. Pouco antes do seu retorno depois do programa concluído eu nasci. Em maio de 73 eu cheguei ao mundo em Flint – Michigan. Naquela época e legislação para o registro de filhos de brasileiros nascidos no exterior deveria ser feita no consulado brasileiro, ja que não havia qualquer acordo de dupla nacionalidade existente. Para que eu fosse cidadão brasileiro meu pai deveria viajar até Chicago e fazer o meu registro no Consulado Brasileiro. No final do curso, com minha avó em casa para ajudar com o recém nascido, esposa e um filho de dois anos e meio, deixar tudo e perder um ou dois dias de Escola para uma formalidade não era prioridade. Meu registro, então, foi feito como uma criança americana. Isso deu uma dor de cabeça no futuro, porque como dito anteriormente, não existia a possibilidade de se ter dupla cidadania no Brasil. Isso veio acontecer depois de Constituição de 1988 e eu só fui me dar conta em 1994, quando finalmente minha cidadania brasileira saiu. Até então, eu era cidadão americano e brasileiro por opção. “Opção” numas, né? Não da pra ser opção quando não se tem outra opção.
            Mas ter crescido com a cidadania americana sempre me deu este desejo de viver e morar nos EUA. Por mais que eu tivesse tido vontade de fazer intercambio, viajar e conhecer a América, meus pais nunca tiveram condições de faze-lo para os três filhos. Se os três não podem, nenhum vai ter. Uma atitude de justiça por parte dos dois. O fato de eu ter nascido fora do Brasil não me fazia melhor do que ninguém. Eu cresci ouvindo deles que se eu quisesse ir para os EUA eu deveria fazer meu próprio recurso e ir, sem depender deles; pois se eles dessem para um, teriam que dar para os outros dois. É justo, muito justo. É justíssimo!
            Se eu pudesse morar nos EUA e trabalhar como Dentista, seria a coroação da minha vida. A presença daquele professor recém chegado à equipe de Materiais Dentários seria a resposta para muitas perguntas que eu tinha sobre as possibilidades de sucesso na minha busca. Eu precisava chegar de maneira certa. Aquele olhar de esgueio não trazia muita naturalidade em qualquer inicio de conversa com ele. Como calouro, a gente fica muito constrangido, ainda mais pra falar com alguém tão “importante” como ele.
            Por coincidência, ou não, uma prima – também Dentista – era casada (são casados ainda) com um cara que acabou sendo peça fundamental na minha mudança para os EUA. Também Dentista, o Celê era amigo do FULANO e achei que usando este assunto eu poderia me aproximar dele para uma conversa mais informal.
            Não vou dizer que não ajudou dizer que conhecia o Celê. Pelo menos o olhar de esgueio sumiu. Contei, então, minha situação legal junto ao governo americano e o que, como cidadão norte-americano, eu precisaria fazer para poder trabalhar como Dentista nos EUA quando eu me formasse dali quatro anos. Quando terminei minha pergunta, sua testa enrugou, seus lábios curvaram para baixo, o olhar de esgueio voltou e como que com um tapa no rosto a resposta foi curta, seca e condescendente:
            - Você nunca vai conseguir trabalhar nos EUA como Dentista. É impossível.


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Dental Assistant – Auxiliar de Saúde Bucal


            Muita gente tem entrado em contato comigo para perguntar sobre a possibilidade de se trabalhar como Dental Assistant aqui nos Estados Unidos. É uma carreira bem interessante no que tange disponibilidade de vagas no mercado. Tem sempre algum consultório que precisa de gente habilitada e competente.
            O que me preocupa, no entanto, é a mão de obra extremamente qualificada que tem entrado em contato comigo para exercer a profissão.
            OK... posso ter parecido um pouco pernóstico com este ultimo comentário... deixa eu explicar.
            Muitas das pessoas que tem entrado em contato comigo perguntando sobre como trabalhar como ASB nos EUA tem uma carreira de sucesso e muito estudo no Brasil. Gente com 2 ou até 3 especializações no curriculum que estão decididos a deixar o Brasil para imigrar para os EUA, um pais com idioma, cultura e métodos de trabalho diferentes dos que estão habituados.
            Ainda que muitos tenham a pretensão de fazê-lo para adquirir experiência, fluência no idioma e aprendizado no dia a dia de um consultório norte-americano a primeira coisa a se pensar é o grau de conhecimento do idioma. O quanto você sabe de Inglês para poder trabalhar como ASB? Não adianta cair de paraquedas em um consultório, portando um excelente currículo, cursos e tudo mais, mas não saber se comunicar com o paciente. O primeiro contato do paciente com o ambiente do consultório se da junto ao ASB e muito da primeira impressão que o paciente levará será com esta primeira impressão.
            Outra coisa importante para se lembrar é que, independentemente de quantas especializações você tenha, tempo de experiência e conhecimento técnico sobre o assunto, nada disso será válido nos EUA. Não existem acordos de reciprocidade entre Brasil e Estados Unidos neste campo. O seu conhecimento será reconhecido com o tempo e muita conversa com profissionais da area. Seus diplomas, certificados e qualificações tem peso sim, não me entenda mal. Entre um(a) ASB americana com 5 anos de experiência na profissão e um Especialista em Perio e Protese brasileiro, pesara mais quem tem experiência no dia a dia do consultório. Além do que, conta-se muito a questão salarial. Um profissional com bagagem como o descrito acima não se satisfaria com o que se ofereceria para um ASB americano; principalmente sendo em inicio de carreira. Você estaria disposto a deixar seu status de Especialista para ser nivelado com concorrência que não tem, as vezes, nem metade do seu tempo de estudo?
            Não quero jogar nenhum balde de agua fria nas expectativas de ninguém. Eu sinceramente acho que o trabalho de um ASB faz toda a diferença dentro de um consultório Odontológico. Por 10 anos eu trabalhei no Brasil sem ter a ajuda de ninguém. Eu praticamente fazia tudo, pois não tinha condições financeiras para manter alguém para me ajudar. Depois que cheguei aos EUA e tive a oportunidade de trabalhar com profissionais competentes que aprendi quão importante a presença de um ASB se faz dentro de um consultório. A produtividade aumenta, a qualidade do trabalho aumenta, pode-se delegar muita coisa para eles e, sem duvida nenhuma, eles são o coração pulsante dentro do consultório.
            Mas vamos la.
            Os requerimentos para um ASB – Dental Assistant – poder trabalhar nos EUA:

            Leva-se geralmente um curto período de tempo para se tornar um ASB. ASB recebem formação educacional através de programas acadêmicos em Community Colleges, escolas vocacionais, institutos técnicos, universidades e faculdades de Odontologia. Os formandos destes programas geralmente recebem certificados. Ainda que a maioria dos programas acadêmicos para formação de ASB levem entre 9 e 11 meses, algumas escolas oferecem treinamento acelerado, treinamento clinico de meio período ou treinamento a distancia.
            ASB podem receber Certificação quando aprovados em testes que avaliam seu conhecimento. A maioria dos ASB que escolhem receber Certificacao Nacional realizam a prova DANB – Dental Assisting National Board – Certified Dental Assistant (CDA). Tornando-se um CDA garante o reconhecimento publico que o ASB esta preparado para auxiliar competentemente dentro de um consultório Odontologico.
            ASB são habilitados a fazer a prova para se tornar CDA quando completam treinamento em instituições reconhecidas pelo Commission on Dental Accreditation (CODA). As pessoas que foram treinadas dentro de um consultório ou obtiveram treinamento em instituições não reconhecidas pelo CODA devem completar dois anos de trabalho em período integral. Alguns Estados também pedem provas de Radiologia, Segurança e provas de Controle de Infecção para autorizar o trabalho.
           
            Boa sorte e sucesso sempre!